
Desde
a fila a de espera para a retirada dos ingressos, é perceptível que o público
para aquele espetáculo não era um público comum à instituição Itaú Cultural,
porém comum ao Coletivo Negro, ou aos grupos de Teatro Negro, via-se um público
predominantemente negro, majoritariamente homens negros, nada mais justo em uma
peça em que eles se veem representados!
Uma hora antes
do espetáculo se iniciar são distribuídos ingressos, o espetáculo começou ás
20h, logo os ingressos começaram a ser distribuídos as 19h, ás 17:30 já haviam
pelo menos 50 pessoas na fila, a lotação era de 200 lugares. Após a
distribuição dos ingressos, este publico predominantemente negro se espalhou
pela Avenida Paulista, para comer, passear, ir a outro espaço cultural, entre
outras coisas, fazendo com que no meio tempo entre a distribuição dos ingressos
e o início do espetáculo,houvesse temporariamente uma ocupação negra na Avenida
Paulista.

O espetáculo
como uma obra tributária ao legado dos Racionais MC’s é bastante musicado, por
muitos vezes nos sentimos em show musical, o trabalho de música dirigido pelo genial
Fernando Alabê e é bastante sofisticado, é possível perceber que o público está
bastante presente, o público começou a reagir desde o começo, desde que KL Jay,
discotecou de forma cortada os primeiros versos de Jorge da Capadócia e um
Homem na Estrada, há um público muito a vontade e muito familiarizado com a
obra dos Racionais MC’s, que em seus lugares dança. É necessário dizer que
nesta crítica não analiso todas as pessoas do público, isso seria impossível,
analiso e descrevo as ações do público majoritário.
O primeiro ato
do espetáculo denomina-se “Morrendo” é um ato bastante dolorido, que traz a
cena como jovens negros são mortos, alguns casos de grande repercussão são
citados, como por exemplo, o massacre ocorrido em 02 de outubro de 1992 no Carandiru,
em que 111 homens, em sua maioria negros, foram mortos, cita-se também Wilton
(20 anos) Wesley (25 anos), Roberto e Carlos Eduardo (ambos com 16 anos),e Cleiton (18 anos), cinco jovens negros
assassinados com 111 tiros no final do ano passado, ou o menino negro, que foi espancado e amarrado nu em poste na
Zona Sul do Rio de Janeiro.
Ao trazer
essas notícias o espetáculo denúncia o quão absurdo é matar jovens negros
apenas por sua cor de pele, diz, grita que esses n não devem morrer, só porque
são pretos, neste trecho o espetáculo se propõe a pensar, tudo que não foi
possível para esses jovens negros realizarem devido aos seus assassinatos
prematuros causadas por violência policial ou civil, diversas vezes ao narrar
essas mortes há a pergunta “-merecia morrer daquele jeito só porque é preto?” Além disso, humaniza esses jovens negros
assassinados, questiona e faz refletir através de frases como, “-será que deu
tempo de olhar nos olhos e dizer eu te amo?”, “-será que deu tempo de ouvir eu
te amo?”
Os mortos
(jovens negros assassinados) são trazidos no cenário, no texto, ou até mesmo em
roupas, este primeiro ato, tal como é ditado durante o espetáculo sobre a obra
dos Racionais MC’s, versa muito sobre morte, mas versa sobretudo sobre vida,
(vida e resistência).
Durante todo o
espetáculo também temos uma dramaturgia que é centrada em perguntas e que muito
se utiliza do recurso da repetição, algumas vezes a Antiga, é mencionada, o que
proporciona para quem acompanha a produção do Coletivo Negro, uma relação com o
primeiro espetáculo do grupo – “Movimento nº1 – O Silêncio de Depois”,
espetáculo que contém essa personagem.

Somos
presenteados quando todos do elenco se trajam, se cumprimentam e dançam Jackson
Five, fazendo referências aos bailes blackes
de tradição estadunidense, que popularizam-se no Brasil em meados de 1980 e
1990, após essa cena o público vibra e aplaude.

Somos também
presenteados com comida, é perceptível na produção do Coletivo Negro, que o público
sempre recebe algo, no já citado “Movimento nº1 – O Silêncio de Depois” quando
o público adentra o espaço cênico recebe um punhado de terra, em “Entre”, o
público recebe café (mesmo que frio), neste espetáculo, após perguntar para a
tia “- Tia tem pão?” a tia diz não, e para a mãe “- Mãe tem pão”, a mãe
responde, “Não, só farinha com açúcar”, neste momento Jé Oliveira, está no
público e distribui copos descartáveis que contém farinha com açúcar, o público
se organiza para experimentar o alimento e compartilhar com que está próximo.
Somos
presenteados também com o riso, sobretudo aos que se identificam, quando a
dramaturgia traz a cena, a vontade de ter Nike, Rebook, entre outras marcas,
para aquele menino negro que usava Bamba e KiChute, que só usava tênis em ocasiões
especiais, como festas ou ir na igreja, que usava roupas doadas e tinha
vergonha disso e queria ter outras coisas, o público ria muito, gargalhava
neste momento, só podia ser riso de identificação, riso de quem já passou por
essa situação, o público que ria de sua dor passada..
Além disso,
descobrimos sobre a importância da obra dos Racionais MC’s para esse
espetáculo, quando um amigo da personagem que conduz a peça vai mostrar uma
fita (cassete mesmo, como dito na dramaturgia, recebida pelos risos do
público), e toca-se “fim de semana no parque”. Percebemos o quanto este grupo
de rap foi importante para o pertencimento racial e formação política do ator
em cena, por vezes, somos levados a pensar que as biografias dos 12 homens
negros entrevistados, formam ou confundem-se com a biografia do homem negro que
está em cena.
Já caminhando
para o final do espetáculo, quando o ator Jé Oliveira está no público e traz
contexto político atual de nosso país, o público é convidado a refletir com ele e pensar o que
precisamos fazer para uma mudança política, ouvimos Fora Temer! Um Fora Temer
coletivo é gritado, o ator diz, que além de Fora Temer, outras coisas são
necessário, alguém grita “-Fogo na babilônia”, risos e aplausos, por último “Liberdade para Rafael Braga”
ouve-se pow pow pow.
Em um
espetáculo em que há a presença de KL Jay é justo com o público, que haja um
momento em que este discote, isso
acontece perto do fim do espetáculo, a partir de um jogo muito bem-humorado
entre KL Jay e Jé Oliveira, neste jogo diversas músicas são discotecadas, até
que chega-se a uma música icônica dos Racionais MC’s, neste dia música foi Vida
Loka parte II, haviam dois jovens negros que cantavam juntos a letra da música,
Jé Oliveira muito justo passa o microfone para os dois, que cantam a música
inteira, em alguns momentos o público responde os diálogos da música, como por
exemplo, “E meus guerreiros de fé, quero ouvi, quero ouvir, e meus guerreiro de fé quero
ouvir, quero ouvir” o público responde aos dois “programado pra morrer nóis é,
certo é certo, dê no que dê”. Durante sua participação no espetáculo os dois
levantam o punho cerrado, referência do movimento Black Power, o público e o elenco respondem e fazem o gesto junto,
encerra-se a experiência estética daquela noite.
Este
espetáculo o tempo toda se baseia em humanizar os jovens negros, denuncia suas
mortes causadas pelo racismo e além disso, mostra a possibilidade de ter alguns
direitos muitos simples que lhes são tirados, como o direito de querer, de ter
perspectivas de futuro.
O espetáculo propõe-se a dialogar de forma
muito direta com seu público, fazendo com que o público negro se identifique pois
se vê representado e convida o público branco a refletir sobre as complexidades
das trajetórias dos homens negros.
Sobre o Coletivo Negro

Sobre o 25ª Edição da Lei de Fomento ao
Teatro para a Cidade de São Paulo.
O espetáculo é
uma das ações do projeto “Coletivo Negro – A concretude Imaterial do que Somos:
Símbolos, Mitologias e Identidades” contemplado pela 25ª edição da Lei de
Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, em que atrizes e atores do grupo
puderam aprofundar pesquisas que circundavam sua produção até então, além do
espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, foram
desenvolvidos os espetáculos Ida (proposição de Aysha Nascimento), o espetáculo
aborda a trajetória e os espaços das mulheres negras na sociedade, Revolver
(proposição de Raphael Garcia), este espetáculo propõe pensar a construção do
Teatro Negro através de tradições populares e Catula (proposição de Thais
Dias), espetáculo que aborda a estética negra.